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Gestão eficiente de resíduos dos serviços de saúde, com foco em laboratórios

30/01/2019
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Por Cristina Sanches

Os resíduos de serviços de saúde possuem natureza variada, porém sua gestão nunca deve ser negligenciada. Eles representam de 1% a 3% da quantidade total dos resíduos gerados no país e têm um papel importante no cenário da saúde pública por ser uma fonte potencial de organismos patogênicos. Em 28/03/2018, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicou a Resolução da Diretoria Colegiada – RDC 222, que dispõe sobre Boas Práticas de Gerenciamento de Resíduos de Serviços de Saúde, trazendo informações sobre manejo, coleta, transporte e destino final de cada resíduo, de acordo com o grupo de risco. A RDC e a resolução n° 358 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) determinam que o descarte dos resíduos sólidos seja de responsabilidade da entidade geradora e que o Plano de Gerenciamento de Resíduos de Serviços em Saúde implantado na unidade deve estar de acordo com os órgãos de Vigilância Sanitária e do meio ambiente.

No caso dos laboratórios de análises clínicas, que se enquadram como fonte geradora de resíduos, constituídos por uma variedade muito grande de tipos, tais como agulhas, seringas, gaze, lâminas, dentre outros, a rotina de gestão desses implica pessoas devidamente capacitadas, treinamentos e seguimento rigoroso de normas e regras. No Grupo São Marcos, por exemplo, as certificações de qualidade têm requisitos ligados à gestão de resíduos, com auditorias interna e externas. Segundo Rodrigo Alvarenga Pinto, gerente executivo de Produção e Apoio, independentemente do tipo de resíduo gerado, seja ele sólido, líquido ou volátil, o objetivo é garantir que eles sejam lançados no meio ambiente sem causar riscos à população e ao próprio meio ambiente, por isso, devem ser previamente tratados antes do descarte sempre que necessário.

“Os resíduos sólidos são previamente autoclavados e descontaminados antes de serem recolhidos por empresa específica e certificada, que dá a destinação final a eles. Já os efluentes gerados são previamente tratados em uma caixa de passagem com produtos determinados pela Companhia de Saneamento local antes de serem descartados na rede pluvial. Por sua vez, os voláteis passam por um processo de tratamento e troca gasosa antes de serem lançados no ambiente”, explica.

Ele diz que o manejo de resíduos laboratoriais requer cuidados essenciais, como avaliação do risco potencial em função da presença de materiais biológicos capazes de causar infecções, objetos não-perfurantes potencialmente contaminados, produtos químicos e mesmo rejeitos radioativos. “Requerem cuidados específicos também no acondicionamento, transporte, armazenamento, coleta, tratamento e disposição final.”

No São Marcos, todo o corpo técnico é treinado e sensibilizado sobre a importância da gestão correta e das diretrizes a serem seguidas. As gerências de Produção e de Qualidade são responsáveis pelo acompanhamento e monitoramento de todo o processo.

Já Daniel Périgo, gerente sênior de Sistemas e Segurança Ocupacional do Laboratório Fleury, conta que a instituição, desde a década de 1990, realiza ações com foco na destinação adequada dos resíduos de saúde. Ele fala sobre a importância de tratar os resíduos antes da destinação final. “Dependendo do porte e das condições de infraestrutura, eles podem ser tratados ou não dentro do próprio estabelecimento de saúde.”

Há casos, por exemplo, de resíduos infectantes que são tratados internamente, como aqueles com alto risco de contaminação, o que evita a circulação de agentes potencialmente infecciosos, e outros que são encaminhados para serem tratados nos locais específicos determinados pelo município.

A periodicidade das coletas varia conforme a quantidade de resíduos gerados. “O tipo de resíduo e a quantidade definem o tipo de coleta”, comenta Périgo. Segundo ele, a maior parte dos resíduos é tratada pelas empresas especializadas, e o que não representa risco às pessoas e ao meio ambiente é descartado diretamente no esgoto.”

Périgo fala ainda dos cuidados com os resíduos radioativos, que são acondicionados em abrigos revestidos com chumbo e que ficam localizados dentro da própria empresa e transportados em carros também revestidos com chumbo. “Calculamos qual o tempo necessário para que o nível de radioatividade se reduza a índices aceitáveis para que então seja dada a destinação adequada.”

Minimizando a geração de resíduos

Alvarenga conta que desde 2015, o Núcleo Técnico Operacional (NTO) do Grupo São Marcos adotou uma postura para redução da geração de resíduos. “A plataforma de automação completa escolhida para processar os exames, responsável por cerca de 70% da produção do Grupo, é a mais econômica e limpa do mercado.”

Segundo ele, a maior automatização dos processos analíticos e a integração ao sistema informacional geraram valor para todos os envolvidos no processo. “O redesenho do fluxo de trabalho e dos processos resultou, por exemplo, na redução da quantidade de tubos coletados, na padronização e melhoria de processos e laudos, e na melhoria da qualidade dos dados, além de reduzir o número de etapas necessárias para relatar um determinado teste e, consequentemente, a geração de resíduos.”

A Dasa – Diagnósticos da América também adota ações para reduzir a quantidade de resíduos gerados e os custos com os processos. Juliano de Souza Barbosa, responsável pela área de Meio Ambiente, cita a reciclagem do álcool e xilol utilizados no processo da anatomia patológica (estimativa de economia de R$ 200 mil/ano com custos relacionados à coleta, transporte e incineração); a reciclagem de caixas de isopor e das caixas de ponteiras de esteira, que resultou na não necessidade de encaminhar aos aterros sanitários cerca de 85m³ por semana desse material; entre outros. “Além destas práticas, identificamos oportunidades no processo produtivo, reduzindo desperdícios e custos, aumentando a lucratividade dos negócios e contribuindo para o desenvolvimento sustentável.”

Na empresa, a gestão de resíduos fica sob a responsabilidade da área de Meio Ambiente e conta com o envolvimento de outros setores da companhia. Barbosa explica que a empresa elabora e implanta o Plano de Gerenciamento de Resíduos de Serviços de Saúde e dispõe de políticas e procedimentos no Sistema Interno da Qualidade para leitura e consulta, além de desenvolver treinamentos e monitorar todas as ações propostas.

No Fleury, uma das ações adotadas para minimizar a geração de resíduos, segundo Périgo, foi a substituição da radiologia convencional pela digital. Sem o consumo de filmes radiográficos e reveladores químicos, a radiologia digital gera menos impacto ambiental, sendo menos poluente e mais ecologicamente correta do que a radiologia convencional. “Estamos sempre atentos para a possível substituição de produtos químicos mais perigosos por outros que apresentem menos riscos; ou para a substituição de equipamentos que possam gerar menor produção de resíduos ou consumo menor de reagentes, por exemplo.”

“Todo processo requer muita atenção, desde o descarte do resíduo até sua disposição final. Os colaboradores que realizam o descarte devem estar bem orientados, assim como as empresas contratadas que irão transportar, tratar e dispor os resíduos devem ser habilitadas tecnicamente e possuir os documentos legais exigidos. Estas ações contribuem para uma imagem positiva diante de clientes, parceiros e comunidade local, além da garantia do cumprimento dos requisitos legais, minimizando os impactos ambientais”, finaliza Barbosa.

Manejo dos resíduos

O correto gerenciamento dos resíduos deve obedecer às seguintes etapas:

Segregação: é feita através da separação dos resíduos no instante e local de sua geração.

Acondicionamento: embalar em sacos impermeáveis e resistentes, de maneira adequada, todos os resíduos que foram segregados, segundo suas características físicas, químicas e biológicas.

Identificação: esta medida indica os resíduos presentes nos recipientes de acondicionamento.

Armazenamento temporário: acondiciona temporariamente os recipientes onde estão contidos os resíduos, próximo ao ponto em que eles foram gerados. Esta medida visa agilizar o recolhimento dentro do estabelecimento.

Armazenamento externo: refere-se à guarda dos recipientes nos quais estão contidos os resíduos, até que seja realizada a coleta externa.

Coleta e transporte externos: refere-se ao recolhimento dos resíduos do armazenamento externo, sendo encaminhado para uma unidade de tratamento e destinação final.

Tratamento dos resíduos

O tratamento pode ser realizado por diferentes processos:

Processos térmicos: por meio da realização da autoclavagem, incineração, pirólise ou até mesmo uso de aparelhos de micro-ondas.

Processos químicos: os materiais são triturados para que haja um aumento na eficiência do processo. Em seguida, são imersos em desinfetantes por alguns minutos.

Irradiação: há uma excitação da camada externa dos elétrons das moléculas, devido à radiação ionizante, deixando-as carregadas. Assim, ocorre um rompimento do material genético dos microrganismos, resultando na morte dos mesmos.

Após tratado, o material é encaminhado para um aterro sanitário que possua licenciamento ambiental. Nos casos de municípios que não possuem esta opção, pode-se fazer uso de valas sépticas, onde os resíduos são depositados. As valas geralmente são revestidas por uma manta geotêxtil impermeável que reduz o risco de contaminações.

Identificação dos grupos dos resíduos de serviços de saúde

Grupo A: presença de agentes biológicos. Os resíduos desse grupo se dividem em cinco subgrupos — A1, A2, A3, A4 e A5. São identificados pelo símbolo de risco biológico, com rótulo de fundo branco, desenho e contornos pretos, acrescido da expressão RESÍDUO INFECTANTE.

Grupo B: presença de substâncias químicas com diferentes características, como inflamabilidade, corrosividade, reatividade e toxicidade. São identificadas por meio de símbolo e frase de risco associado à periculosidade do resíduo químico.

Grupo C: radioativos. São representados pelo símbolo internacional de presença de radiação ionizante (trifólio de cor magenta ou púrpura) em rótulo de fundo amarelo, acrescido da expressão MATERIAL RADIOATIVO, REJEITO RADIOATIVO ou RADIOATIVO.

Grupo D: resíduos comuns. Devem ser identificados conforme definido pelo órgão de limpeza urbana.

Grupo E: perfurocortantes ou escarificantes. São identificados pelo símbolo de risco biológico, com rótulo de fundo branco, desenho e contorno pretos, acrescido da inscrição RESÍDUO PERFUROCORTANTE.

Fonte: https://www.labnetwork.com.br/especiais/gestao-eficiente-de-residuos-dos-servicos-de-saude-com-foco-em-laboratorios/

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